31.12.12

A Lenda das Sereias


30.12.12

Autumn Leaves - Eric Clapton


29.12.12

Agora vai!

Olha só minha cara de mau…

22.12.12

John Lennon - Happy Xmas (War Is Over)


20.12.12

Minha coluna na Folha ZN acabou

Como disse meu amigo Ricardo Gomes, é apenas o fim de um ciclo e não do mundo. O Ricardo está saindo da Folha ZN e, como fui convidado para o jornal por ele, não vejo sentido em continuar com a coluna “Cidadania e Inclusão Social”. Eu agradeço ao povo brasileiro, a toda a equipe, pela convivência gratificante nas páginas do jornal, aos leitores da Zona Norte e do mundo inteiro que me deram atenção e, como diria Gilberto Gil, aquele abraço!

Silvio Tendler na delegacia

video
Na porta da delegacia, esperando Silvio Tendler
Eu e Silvio Tendler, quase na porta do xadrez
 
 

18.12.12

A perua das peruas


Cheguei nas vagas para pessoas com deficiência do Shopping Leblon junto com três peruas sem deficiência que ocupavam a perua da esquerda. As indigitadas disseram para um jovem funcionário intimidado que “só ficariam 15 minutos”. Quando fui embora, três horas depois, a perua das peruas ainda estava lá. Em tempo: o carango da direita também não era de pessoa com deficiência.

Um último presente de Natal


O Globo, Opinião, 18/12/2012:

Um último presente de Natal

DANIEL AARÃO REIS

O senhor K teve um estalo: Ana não o procurava há dias. Mau presságio. Corria o início dos anos 1970. Para uns, tempos reluzentes, para outros, sombrios. Telefonou e o sinal de chamada tocou, tocou, até que desistisse. Esperou. Os dias passaram-se e nenhum indício. No radar afetivo a filhinha querida entrara em eclipse.

O Senhor K correu atrás. Moveu e removeu céus, terras e montanhas. Foi à Escola de Química onde ela trabalhava. Nada. Ninguém sabia de nada. Desviavam os olhos dele. Desviavam-se dele.

Por intermédio de amigos e conhecidos procurou ouvidos e encontrou paredes. Às vezes, um silêncio distraído, constrangido. Quase sempre, arrogante. Não sabiam onde ela se encontrava, não queriam saber, nem o ajudariam a saber. Experimentando uma imensa fragilidade, uma sensação de impertinência e de inadequação, descobriu-se então o Senhor K numa comunidade. Como ele, havia outros tantos que andavam em busca de afetos perdidos. Sentiu-se agora mais forte, porque os humanos, quando juntos, cultivam uma ilusão de calor e força, mas nem por isso os resultados foram efetivos.

A filha desaparecera.

Mais tarde, quando já quase desistira de procurar, não de esperar, o Senhor K passou a receber pistas falsas. Os algozes divertiam-se, observando-o em buscas desesperadas e desesperançadas. Apesar de inúteis, não dava para ignorar as indicações, mesmo que intuísse que não levariam a lugar algum.

Mas as provações não tinham chegado ao fim. Houve ainda a reunião da Congregação da Escola de Química da Universidade de São Paulo. Em pauta, a demissão da filha por “abandono do trabalho”. Aquelas excelentes pessoas sabiam que a jovem doutora Ana Rosa Kucinski Silva não tinha “abandonado o trabalho”; fora sequestrada e assassinada pela policia política do Estado. Fingiram ignorar os fatos e aprovaram a demissão. Por justa causa. Para agradar o poder, garantir verbas e, disse um deles, salvar a instituição. Ninguém falou nem votou a favor de Ana.

Coisa semelhante aconteceu com Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto. Em algum momento de fevereiro de 1971, sumiu do mapa.

Prevenidos, os familiares saíram à busca. Andaram Seca e Meca, de déu em déu. Delegacias, quartéis, amigos, conhecidos, a varredura dos espaços, inútil. O radar, mudo, não encontrava sinais.

A mãe e o pai escreveram às autoridades cartas comoventes. Tiveram como resposta o silêncio. Um dia, já não suportando a dor, a mãe dirigiu-se a um alto general. O homem maneou a cabeça, não sabia de nada. Os braços da mãe o sacudiram: “Como o senhor não sabe de nada, se nós sabemos de tudo?” O sujeito endireitou-se, abriu a gaveta da mesa e mostrou uma metralhadora.

Foi o sinal mais concreto que a família de Beto teve de seu destino.

Muitos anos depois, soube-se que Ana e Beto haviam passado pela chamada Casa da Morte. Um aprazível lugar em Petrópolis onde os revolucionários presos eram torturados, assassinados e esquartejados. Segundo o testemunho de um policial, os pedaços dos corpos, enfiados em sacos plásticos, eram levados a um outro lugar para serem incinerados.

Assim desapareceram do mundo Ana e Beto.

Para que seja possível recordá-las, e não esquecê-las, as histórias foram contadas, em linguagem contida, por Bernardo Kucinski e Cristina Chacel. Exercícios de memória, como na bela fórmula de Kundera: “A luta da liberdade contra o Estado é a luta da memória contra o esquecimento.” Assim, neste Natal, nos momentos de recolhimento, quando pensarmos no ano que se foi e no que virá, talvez fosse de bom alvitre ler as palavras que eles escreveram.

Mas o que valem as palavras? Foi a pergunta que se fez o velho Leão-Leão, personagem de Isaac Babel num dos contos de Odessa. Ele remoía, melancólico, a morte do bandido Benia Kric:

— O que valem as palavras? Benia estava aqui. Agora, não está mais.

Como Ana e Beto. Ele e ela estavam aqui, não estão mais.

Foram pegos e trucidados por homens que agiam à sombra, e cumprindo ordens, do Estado brasileiro. Os dois eram revolucionários num tempo em que a palavra revolução tinha um certo significado. Viveram por ela e por ela ofereceram o que tinham de melhor, as vidas.

Agora, ela e ele não estão mais.

Restaram, porém, a memória e as palavras.

Um dia, disseram a Eli Wiesel: “Os homens não mudam e detestam se lembrar.” O velho respondeu: “É um problema deles. Eu não esquecerei.” Ele tinha razão: em qualquer circunstância, resta-nos a memória, que pode ser gravada em palavras, que então adquirem valor.

Como os antigos povos, que plantavam marcos para assinalar territórios, as palavras de Bernardo e Cristina são marcos valiosos bem fincados no território da memória, sinalizando roteiros para atuais e futuras recordações.

Que esta crônica tenha igual sentido. Que ela seja um pequeno marco a mais, e também uma oferta para Ana e para Beto, como se fora um último presente de Natal.

Daniel Aarão Reis é professor de História Contemporânea da Universidade Federal Fluminense
Email: daniel.aaraoreis@gmail.com

17.12.12

Carta Aberta de Silvio Tendler

Carta Aberta a um Delegado de Polícia ou Respondendo à Intimidação por parte do clube militar.

Delegado,

Dois policiais vieram ontem à minha residência entregar intimação para prestar declarações a fim de apurar atos de “Constrangimento ilegal qualificado – Tentativa – Autor”, informa o ofício recebido. Meu advogado apurou tratar-se de denúncia ou queixa ou sei lá o quê, por parte do “presidente do clube militar” (em letra minúscula mesmo, de propósito).

Informo que na data da manifestação, 29 de março de 2012, estava recém-operado, infelizmente impedido de participar de ato público contra uma reunião de sediciosos, os quais, contrariando à determinação da Exma. Sra. Presidenta da República, comemoravam o aniversário da tenebrosa ditadura, que torturou, matou, roubou e desapareceu com opositores do regime.

Entre os presentes estava o matador do Grande Herói da Pátria, Capitão Carlos Lamarca, e seu companheiro Zequinha – doentes, esquálidos, sem força, encostados numa árvore. Zéquinha e Lamarca foram fuzilados sem dó, nem piedade, quando a lei e a honra determinam colocá-los numa maca e levá-los para um hospital para prestar os primeiros socorros. Essa gente estava lá, não eu. Eles é que devem ser investigados. Eu farei um filme enaltecendo o Capitão Lamarca e seu bravo companheiro Zequinha.

Tenha certeza, Delegado, de que, enquanto eu tiver forças, me manifestarei contra o arbítrio e a violência das ditaduras e, já que o Sr. está conduzindo o inquérito, procure apurar se o canalha que prendeu, torturou e humilhou minha mãe nas dependências do Doi-Codi participou do “festim diabólico”. Isso sim é Constrangimento Ilegal. E já que se trata de assunto de polícia, aproveite para pedir ao “constrangedor ilegal” que ficou com o relógio da minha mãe – ela entrou com o relógio no Doi-Codi e saiu sem ele – que o devolva. Processe-o por “apropriação indébita, seguida de roubo qualificado (foi à mão bem armada)”. É fácil encontrar o meliante. Comece pelo Comandante do quartel da Barão de Mesquita em janeiro de 1971. Já que eles reabriram o assunto, o senhor pode desenterrar o processo. É, Delegado, o que eles fizeram durante a ditadura é mais assunto de polícia do que de política!

Pergunte ao queixoso presidente do clube militar se ele tem alguma pista do paradeiro do Deputado Rubens Paiva. Terá sido crime cometido por algum participante da festa macabra, onde, comenta-se, havia vampiros fantasiados de pijama?

Tudo o que fiz foi um chamamento pelo you tube convidando as pessoas a se manifestarem contra as comemorações do golpe de 64. Se este general entendesse ou respeitasse a lei, não teria promovido a festa e, tendo algo contra mim, deveria tentar me enquadrar por “delito de opinião” mas aí, na fotografia, ele ficaria mais feio do que é, não é mesmo?

Por fim, quero manifestar minha solidariedade aos que protestaram contra o “festim diabólico” e foram tratados de forma truculenta, à base de gás de efeito moral, spray de pimenta e choque elétrico – como nos velhos tempos. Bastaria umas poucas grades para separar os manifestantes do povo, que estavam na rua, aos sediciosos que ingressavam no clube. Há muitos poderia causar a impressão de estar visitando um zoológico e assistindo a um desfile de símios.

Não perca tempo comigo e com a ranhetice de um bando de aposentados cri-cri, aporrinhando a paciência de quem tem mais o que fazer. Pura nostalgia da ditadura, eles se portam como se ainda estivessem em posição de mando.

Atenciosamente,

Silvio Tendler

***
Veja também:

Eu fui

13.12.12

Clara Palavra 135

11.12.12

Feliz Natal ZN!

Folha ZN, 10/12/2012:

Cidadania e Inclusão Social
ANDREI BASTOS

Presente de Natal

OS BRASILEIROS GANHARAM SEU MELHOR PRESENTE DE NATAL com o julgamento do mensalão pelo STF. Com as penas dadas a políticos e empresários poderosos, acabou a tradição perversa de impunidade para os crimes de colarinho branco que sempre penalizou nossa sociedade. Mas, é preciso que cada um de nós se conscientize de que essa impunidade só acabará em todos os níveis – federal, estadual e municipal – e não voltará, se mantivermos vigilância sobre nossos governantes e parlamentares, denunciando sempre seus malfeitos e não votando em fichas sujas. Afinal, eles estão na vida pública para servir ao Estado e à população e não o contrário, como muitos querem.

Direitos da pessoa com deficiência
A 3ª CONFERÊNCIA NACIONAL DOS DIREITOS DA PESSOA COM DEFICIÊNCIA acontece em Brasília quando esta edição da Folha ZN chega a vocês, e eu participo dela. “Um olhar através da Convenção sobre os Direitos da Pessoa com Deficiência, da ONU: novas perspectivas e desafios” é o seu tema, com quatro eixos de debate: “Educação, esporte, trabalho e reabilitação profissional”; “Acessibilidade, comunicação, transporte e moradia”; “Saúde, prevenção, reabilitação, órteses e próteses”; “Segurança, acesso à justiça, padrão de vida e proteção social adequados”.

Pela responsabilidade pública
A SRP – SOCIEDADE PELA RESPONSABILIDADE PÚBLICA É UMA ONG que “se propõe a acolher e apoiar reclamações de cidadãos e organizações por indenizações e pela responsabilização de autoridades, seja por omissão, incúria ou dolo. Buscará, também, o aprimoramento da legislação, a começar pela criação de uma Lei de Responsabilidade Social ou Lei de Defesa do Cidadão”. A Ong foi criada por um grupo de advogados e jornalistas, do qual faço parte, por causa da tragédia na Região Serrana em 2011. Espero que não tenhamos novas trágicas motivações neste verão.

ANDREI BASTOS é jornalista e integra a Comissão de Direitos Humanos da OAB/RJ.
Blog: www.andreibastos.com.br/blog – Email: contato@andreibastos.com.br

6.12.12

A Conferência deficiente

ANDREI BASTOS

Seria cômico se não fosse trágico. Quando vi figuras importantes da República dos Deficientes comemorando tolamente felizes, aos risos e tapinhas nas costas, com a mais importante delas até subindo numa cadeira em tentativa de demonstrar autoridade ao ser acusada de golpista, fiquei entre a vergonha alheia e a gargalhada.

Tal cena constrangedora aconteceu quando eram discutidas propostas do grupo de educação da Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência. A turma que a protagonizou, que entrou sorrateira e em bloco num determinado momento do dia no plenário, tinha o objetivo claro de votar contra a educação inclusiva.

Mas como é possível pessoas com deficiência serem contra a inclusão pela educação? Ora, isso é o mesmo que perguntar por que negros escravizaram negros, vendendo-os a peso de ouro para os regimes escravagistas, como fez Zé Alfaiate, que depois de comprar sua carta de alforria se tornou o maior traficante de escravos para o Brasil no final do século XVIII.

Por falar em século XVIII, foi logo depois dele, em 1880, que ocorreu o maior retrocesso da história da deficiência no Congresso de Milão, conferência internacional de educadores de surdos, que decidiu excluir a língua de sinais e adotar o oralismo, literalmente amarrando as mãos dos surdos às costas – o que valeu por cem anos.

Pois agora, no século XXI, parece que os “escravagistas” de plantão da Conferência Nacional dos Direitos das Pessoas com Deficiência querem a todo custo superar as marcas de inumanidade e retrocesso relatadas acima e defendem com unhas, dentes e astúcia suas trincheiras de poder político e financeiro. Afinal, tal como Zé Alfaiate, eles procuram manter seus bolsos bem forrados.

E nada pior para assombrar as noites dos “escravagistas” reviventes do que a ameaça de furos nos seus bolsos apresentada pela educação inclusiva – ampla, geral e irrestrita –, especialmente se adotada como política pública federal, de alcance nacional efetivo viabilizado por recursos públicos compatíveis. Com a inversão da equação em que a regra é a ausência de crianças com deficiência nas escolas comuns para a regra da presença maciça dessas crianças em tais escolas, logo estarão extintos os guetos excludentes, segregadores, e altamente lucrativos, que perversamente negam à maioria de tais crianças seu direito ao pleno desenvolvimento cognitivo.

Uma conferência nacional deveria tratar dos aspectos mais amplos e gerais da questão da deficiência e não de situações particulares e de exceção, como são os casos de crianças com deficiência que real e completamente dependem do ensino especial. Tentar transformar em regra geral procedimento cabível apenas em casos excepcionais é defender interesses particulares e inconfessáveis com impudência.

Cabe agora ao Executivo e ao Legislativo a tarefa de reverter este surto de retrocesso, até por inconstitucional, promovido por quem mais deveria querer avançar, mas que, infelizmente, foi manobrado pela manha dos “escravagistas” de plantão contra a inclusão.

ANDREI BASTOS é jornalista com deficiência.