9.6.09

O lobby das sinecuras

ANDREI BASTOS

À primeira vista, os escândalos de mau uso do dinheiro público, recentes e antigos, da “bolsa ditadura” aos mais de 100 diretores do Congresso, e mesmo o roubo descarado desse dinheiro que é nosso, em toda a escala hierárquica política e social, nos apresentam um quadro de extrema degeneração das instituições causado pela corrupção e falta de ética, não nos parecendo haver coisa pior. Infelizmente, o que existe por trás disso e é o verdadeiro motor desse processo irrefreável de saque aos cofres públicos é nossa verdadeira tragédia e vai muito além de toda a história da corrupção brasileira porque é o que a constrói.

Em primeiro lugar, devemos entender que corrupção não é apenas o que acontece longe da gente, a imprensa noticia e está definido nos dicionários como “ato ou efeito de subornar, vender e comprar vantagens, desviar recursos”. Já foi dito à exaustão que ao nos livrarmos de multas de trânsito mediante módicas cervejinhas pagas aos policiais estamos fazendo coisa feia. Mas corrupção não é só isso. Acontece que este fenômeno tem raízes culturais e econômicas profundas e resulta basicamente da falta do que fazer da maioria dos brasileiros. E como pode a população de um país emergente, com tantas necessidades e desigualdades, não ter o que fazer?

Nós não temos o que fazer porque não sabemos fazer quase nada. O Brasil é a versão gigante de inúmeros municípios que têm suas economias alimentadas unicamente pelo funcionalismo, sem falar em bolsa família, e é por isso que seus gastos correntes comprometem os investimentos há muito tempo, particularmente em educação, pesquisas científicas e infraestrutura. Este é o quadro que alimenta a tragédia nacional e todo mundo corre atrás de concurso público, emprego em gabinete de parlamentar, indenização da Lei da Anistia etc. e, pior de tudo, mascara-se a insaciável criação de novas “tetas” com iniciativas que aparentemente atendem às necessidades de inclusão social e eliminação de desigualdades e falta de oportunidades. Isto também é corrupção.

Assim, proliferam pelo Brasil, como partes dos governos ou vinculadas a eles, estruturas que abrigam brasileiros que poderiam ter sido mais bem preparados e hoje estar contribuindo efetivamente para nosso progresso, particularmente os que se encastelam no alto de falsas importâncias ou de ideologias igualmente falsas, ao ponto de fundamentarem argumentações contraditórias à real promoção de direitos e inclusão. São discursos que não resistem a questionamentos mais profundos e se revelam autoexcludentes e promovem a própria segregação de quem os faz. É assim com o Estatuto do Coitadinho do Paim ou com o projeto do deputado Efraim Filho de cota para deficientes em instituições públicas de ensino médio e superior, por exemplo, sem falar de outros segmentos igualmente discriminados e excluídos.

É por isso que o drama brasileiro só se encaminhará para um final feliz se conseguirmos reverter este quadro de indigência intelectual e científica, que bem serve a interesses estranhos à nossa terra, pararmos de ficar inventando justificativas para novos cabides de empregos na forma de organismos equivocados e vazios de poder para implementar ou estimular políticas públicas e, depois de tudo isso, derrotarmos o mais poderoso dos lobbies, o das sinecuras.

Do jeito que está, eu fico até constrangido em receber minha aposentadoria por doença grave, pois pode parecer que arrumei um câncer para descolar uma mordomia.

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