9.6.09

Crise mundial agrava os desafios do Terceiro Setor

Revista Filantropia On-line nº 200, 08/06/2009:

Crise mundial agrava os desafios do Terceiro Setor

Por: Dora Sílvia Cunha Bueno

Os dados recentemente divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU), de que a presente crise financeira global deve levar mais de 20 milhões de pessoas ao desemprego em todo o mundo, evidenciam um retrocesso no que diz respeito ao cumprimento dos Objetivos do Milênio, em especial quanto à redução substantiva dos índices de miséria até 2015. O número de desempregados, segundo estimativa da Organização Internacional do Trabalho (OIT), deve se elevar na maioria dos países, passando dos 190 milhões de indivíduos, em 2007, para 210 milhões, em 2009.

Essa informação soma-se à outra constatação recentemente tornada pública de que, mesmo antes da hecatombe financeira desencadeada pelo crash do subprime nos Estados Unidos, a disparidade de renda já havia aumentando em todo o planeta, inclusive no universo das pessoas empregadas. Nesse cenário, torna-se ainda mais significativa e necessária a atuação do Terceiro Setor, ou seja, a prática do bem comum pelo capital de origem privada e organizações da sociedade civil.

Considerada tal situação, é interessante observar estudo realizado pelo IBGE demonstrando que, em 2005, havia 338 mil fundações privadas e associações sem fins lucrativos no Brasil. Elas empregavam 1,7 milhão de pessoas, com salários médios de R$ 1.094,44. O tempo de existência dessas instituições era de aproximadamente 12,3 anos, e o Sudeste abrigava 42,4% delas. São instituições de pequeno porte, mas, juntas, realizam consistente trabalho. Contribuem para a inclusão social de milhares de brasileiros a partir de programas nas áreas da educação, iniciação profissional, saúde, esportes, cultura, alimentação, defesa dos direitos da cidadania e lazer.

Tal postura é crucial para se cumprir um pressuposto básico da democracia: a igualdade de oportunidades. Mais do que nunca, a transparência é um fator condicionante ao sucesso das fundações em sua meta de contribuição para o desenvolvimento. Nesse caso, é importante frisar que a definição de transparência transcende aos inexoráveis conceitos da governança corporativa e boas práticas da gestão. Abrange, também, a visibilidade pública do trabalho daquelas organizações, de modo que estimula o engajamento de mais organismos civis e pessoas no indispensável esforço da sociedade em prol da redução da dívida social e avanço da melhoria da qualidade da vida, assim como da posição do Brasil no ranking do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH), medido pela ONU.

É preciso disseminar a consciência de que o exercício da responsabilidade social contribui muito para a inclusão de milhares de brasileiros nos benefícios da economia e nas prerrogativas da cidadania. As fundações cumprem, portanto, expressivo papel, contribuindo para mitigar a exclusão. Trata-se de trabalho indispensável, não só no Brasil, mas em todo o mundo, considerando-se que o Estado não tem capacidade de equacionar sozinho todas as demandas inerentes às assimetrias sociais. Assim, a mobilização da iniciativa privada é imprescindível, principalmente nas nações em desenvolvimento e nos países emergentes, nos quais ainda persistem sérios gargalos no atendimento aos direitos básicos dos cidadãos.

Agora, no contexto de uma crise mundial de proporções ainda indefinidas, crescem sobremaneira os desafios do Terceiro Setor. O segmento terá papel crucial no sentido de evitar que o preço mais alto e injusto da irresponsabilidade dos especuladores seja pago exatamente pelos indivíduos e famílias menos favorecidos e mais frágeis da pirâmide demográfica.

Dora Sílvia Cunha Bueno:
Presidente da Associação Paulista de Fundações (AFP) e da Confederação Brasileira de Fundações (Cebraf).

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