31.5.13

Lúcia Murat

Depoimento na íntegra de Lúcia Murat para Comissão da Verdade do Rio de Janeiro:

“A minha primeira prisão foi no Congresso estudantil em Ibiúna em outubro de 1968. Eu era vice-presidente do diretório estudantil da faculdade de economia e estava no congresso representando a minha faculdade. Fiquei cerca de uma semana na prisão e não fui torturada. Antes do Ato Institucional número 5, em 13 de dezembro de 1968, os estudantes de classe média não eram torturados, mas o mesmo não acontecia com os operários. Dois anos mais tarde encontrei e militei com José Barreto, assassinado junto com Carlos Lamarca, e ele me contou das torturas que sofreu em 1968, quando foi preso por ter estado no comando da Greve de Osasco.

Por ter sido presa no Congresso de Ibiúna, eu entrei na clandestinidade lodo depois do Ato Institucional número 5, pois sabíamos que com o fim do habeas corpus e dos direitos que ainda existiam os militares iriam me perseguir em algum momento. E, efetivamente, alguns meses mais tarde, quando da chamada Operação Rockefeller, mais de 10 mil pessoas foram presas numa tentativa de preservar o país de qualquer manifestação contra a chegada de Nelson Rockefeller, então governador de Nova York. Nessa ocasião, a casa dos meus pais foi invadida por militares armados. E meu pai, Dr. Miguel Vasconcellos, então diretor do Hospital Pedro Ernesto no Rio de Janeiro, foi preso e levado para um quartel onde o interrogaram sobre a minha localização, a qual ele desconhecia. Com ele, foi levada minha irmã Regina Murat Vasconcellos. Eles foram soltos, depois de ameaçados.

A minha segunda prisão se dá então em 31 de março de 1971, depois de dois anos e meio de clandestinidade.

A tortura era uma prática da ditadura e nós sabíamos disso pelo relato dos que tinham sido presos antes. Mas nenhuma descrição seria comparável ao que eu vim a enfrentar. Não porque tenha sido mais torturada do que os outros. Mas porque o horror é indescritível.

Sabendo dessa impossibilidade, vou tentar descrevê-lo.

Em março de 1971, eu estava junto com Maria Luiza Garcia Rosa num quarto que alugávamos num apartamento no Jacarezinho. Eles chegaram de noite e nem houve condições de esboçar uma reação. Imediatamente fomos separadas, me jogaram num carro e me enfiaram um capuz. Começaram a me bater dentro do carro.

Quando cheguei no Doi-Codi, não sabia onde estava, só fui descobrir mais tarde, que era o quartel do Exército localizado na Rua Barão de Mesquita, que existe até hoje. Rapidamente me levaram para a sala de tortura. Fiquei nua, mas não lembro como a roupa foi tirada. A brutalidade do que se passa a partir daí confunde um pouco a minha memória. Lembro como se fossem flashs, sem continuidade. De um momento para outro, estava nua apanhando no chão. Logo em seguida me levantaram no pau de arara e começaram com os choques. Amarraram a ponta de um dos fios no dedo do meu pé enquanto a outra ficava passeando. Nos seios, na vagina, na boca. Quando começaram a jogar água, estava desesperada e achei num primeiro momento que era para aliviar a dor. Logo em seguida os choques recomeçavam muito mais fortes. Percebi que a água era para aumentar a força dos choques.

Isso durou horas. Não sei quantas. Mas deve ter se passado mais de dez horas. De tempos em tempos, me baixavam do pau de arara. Lembro que um médico entrou e me examinou. Aparentemente fui considerada capaz de resistir, pois a tortura continuou.

Logo que comecei a apanhar, achei que não ia resistir e inventei uma história que na minha cabeça me possibilitaria me suicidar. Nós tínhamos um sistema de ponto – de encontros – em que se não aparecêssemos em 48 horas, nós seriamos considerados presos e nossa família seria avisada. Eu queria proteger meus companheiros e a única coisa que me passava pela cabeça era aguentar um tempo até eu ter condições de me suicidar, pois assim todos estariam salvos. Então, disse que eu deveria estar na varanda do apartamento onde tinham me prendido, e que um companheiro passaria de carro embaixo do edifício. Eu faria um sinal de que tudo estava bem, e ele iria me encontrar mais tarde em um determinado lugar. Eu achava que da varanda do apartamento eu poderia me jogar e tudo estaria terminado.

Mas quando eu saí do pau de arara , eu estava paralítica, a minha perna direita tinha inchado muito (depois foi diagnosticada uma flebite). Eu não conseguia mexer a perna, estava muito machucada, com febre muito alta e com os pulsos abertos por causa do pau de arara. Sem poder subir as escadas do edifício, eles me levaram até o local, mas me deixaram dentro do carro e me substituíram na varanda por uma pessoa deles com uma peruca da cor dos meus cabelos. Quando eu percebi o que estava acontecendo, comecei a ficar desesperada. Sabia que eles não iam pegar ninguém e que quando voltasse eu não iria resistir. Eu não ia conseguir me suicidar. Essa foi talvez a pior sensação da minha vida, a sensação de não poder morrer. Eu chorava igual uma louca dentro do carro e pedia por favor para eles me matarem. Eles riam. E diziam que eu ia me fuder se não caísse ninguém.

Eu não tinha muita noção das horas, mas sabia que, naquele momento, tinha que aguentar pelo menos mais 12 horas para impedir a prisão dos meus companheiros. E não sabia como. Aos 22 anos, eu vi que tinha que inventar outra história que justificasse para mim mesmo o novo horror que se aproximava. Desde o carro, antes de ir para um encontro onde ninguém foi preso, eu comecei a dizer que a culpa era deles, que ninguém era idiota de ir num ponto porque não era eu que estava na varanda. Eu precisava me agarrar a uma história, mesmo que eles não acreditassem.

Não sei bem o que se passou quando eu voltei. As lembranças são confusas. Não sei como era possível, mas tudo ficou pior. Eles estavam histéricos. Sabiam que precisavam extrair alguma coisa em 48 horas senão perderiam meu contato. Gritavam, me xingavam e me puseram de novo no pau de arara. Mais espancamento, mais choque, mais água. E dessa vez entraram as baratas. Puseram baratas passeando pelo meu corpo. Colocaram uma barata na minha vagina.

Hoje, parece loucura. Mas um dos torturadores de nome de guerra Gugu, tinha uma caixa onde ele guardava as baratas amarradas por barbantes. E através do barbante ele conseguia manipular as baratas no meu corpo.

Eu queria morrer e não conseguia morrer. Mas nisso praticamente eu já tinha ganho o tempo necessário para liberar os pontos com a organização. E a Marilena Vilas Boas, que mais tarde foi barbaramente assassinada, que era com quem eu tinha os encontros, conseguiu avisar minha família de que eu tinha sido presa.

Passados esses primeiros dias, eu fui largada no corredor, de capuz. Eu ficava meio desmaiada, meio dormindo. Até que fui levada para a enfermaria. Na enfermaria, depois de algum tempo, comecei a tomar antibióticos. Não podia andar, minha perna direita estava muito inchada e não mexia, meus pulsos estavam feridos, assim como os seios e os pés. Não podia comer porque tinha levado muito choque na língua e se engolia alguma coisa, vomitava.

Médicos mais tarde calcularam que se eu não tivesse começado a ser medicada, eu teria morrido em poucos dias. Isso é uma questão importante. As circunstâncias. Com certeza eu fui salva por circunstâncias, não pela vontade deles. Podíamos morrer a qualquer momento e por isso nos mantinham incomunicáveis em todo esse período e negavam nossa prisão. Para eles, que eram donos de nossas vidas e de nossas mortes, seria apenas mais um “acidente”, como tantos que aconteceram.

Na enfermaria, os médicos que me trataram eram os mesmos que nos “assistiam ” na sala de tortura: Amilcar Lobo e Ricardo Fayal. No dia seguinte, comecei a ser interrogada por dois representantes da Bahia – eu tinha vivido clandestina durante um ano em Salvador – o Major Cinelli, do CIEX e um representante da Aeronáutica. Eles resolveram me levar para a Bahia. Disseram que iam me tratar lá.

Fui de avião da FAB para Salvador e levada para o quartel de Barbalho, onde o médico se apavorou achando que eu ia morrer em suas mãos e fez um relatório descrevendo em detalhes minha situação e pedindo um especialista. Lembro que esse médico disse: “Eu vou fazer isso porque senão você vai morrer nas minhas mãos e eu não tenho nada a ver com isso”. Trouxeram então um médico neurologista da Aeronáutica que me tratou. Minha perna começou a desinchar. Continuava de cama e sendo interrogada todos os dias pelo major Cinelli. Mas nesse momento sem tortura física.

Melhorei, a perna desinchou e fui transferida para Base Aérea em Salvador. Eu estava com a perna muito fina, sem controle no pé, a cintura torta, como se eu tivesse tido paralisia infantil. Achei que as torturas tinham terminado, quando me avisaram que eu voltaria para o Rio. Quando eles entraram na cela já me puseram o capuz. Fui levada aos trancos para o avião, e durante todo o trajeto era ameaçada de ser jogada para fora. Me levantavam da cadeira, me levavam até um lugar onde deveria ser a porta de emergência do avião e diziam que iam abrir. Voltavam a me sentar para recomeçar tudo. Em algum momento, me perguntaram pelo “Paulo”, nome de guerra do Stuart Angel Jones, e eu percebi que ele tinha caído. Depois, no Rio nunca mais perguntaram por ele. Stuart tinha sido assassinado. Só soube depois.

Eles se comportavam o tempo todo como se estivessem disputando um campeonato. E o que estava em jogo podia ser uma prisão, a morte de alguém da oposição considerado importante, o fato de alguém ter falado. Assim, o pessoal do DOI-Codi disputava com a Aeronáutica, que disputava com a polícia… O pessoal do Rio disputava com a Bahia etc…. Eles nos disputavam como se fossemos troféus, verdadeiros animais de caça.

Quando voltei ao DOI-Codi, de Salvador, a tortura seria um pouco diferente. Em 1971, eles já conheciam bem o funcionamento das organizações clandestinas e a tortura era dirigida para o seu aniquilamento. Assim, eles sabiam do esquema de pontos que tínhamos e a tortura, quando éramos presos, era violenta e brutal para que entregássemos os encontros com nossos companheiros o mais rápido possível. Depois, eles sabiam que podiam usar o tempo a favor deles para conseguir informações mais estruturais. Um dos torturadores, de nome de guerra Nagib, me disse um dia que para eles nós éramos como cachorrinhos de Pavlov. O choque no início tinha de ser de alta voltagem. Mas depois, eles podiam dar choques pequenos que a nossa memória era do choque de alta voltagem. Nós já estaríamos nas mãos deles.

Acho isso muito importante porque demonstra também que essa equipe de torturadores estudava os métodos que eles eufemisticamente chamavam de “técnica de interrogatório”. Não era simplesmente uma explosão de um sádico de plantão. Num segundo momento então, a tortura era progressiva, feita de idas e vindas, de ameaças e da nossa certeza, permanentemente alimentada por eles, que tudo poderia recomeçar a qualquer momento. O objetivo era, pouco a pouco, nos anular, como pessoas e como militantes.

Foi nesse quadro, na volta, que o próprio Nagib fez o que ele chamava de tortura sexual científica. Eu ficava nua, com um capuz na cabeça, uma corda enrolada do pescoço passando pelas costas até as mãos, que estavam amarradas atrás da cintura. Enquanto o torturador ficava mexendo nos meios seios, na minha vagina, penetrando com o dedo na vagina, eu ficava impossibilitada de me defender, pois se eu movimentasse meus braços para me proteger eu me enforcava e instintivamente voltava atrás. Ou seja, eles inventaram um método tão perverso em que aparentemente nós não reagíamos, como se fôssemos cúmplices de nossa dor. Isso durava horas ou noites, não sei bem.

Era considerado um método de aniquilamento progressivo. E foi realmente o período em que eu mais me senti desestruturada, mais do que em toda a loucura dos primeiros dias porque você já sabe o que é a tortura, e ela parece que nunca terá fim. Nessa época, a rotina estava implantada. Eu ficava numa cela – num período fiquei com uma menina do Paraná chamada Ruth – e era levada repetidamente para a sala de tortura, para novos interrogatórios.

Acho que a essas alturas eu já estava há dois meses na prisão, quando meu advogado, Dr. Técio Lins e Silva, conseguiu que eu fosse apresentada na Auditoria da Marinha, onde corria um processo contra mim.

Desde o primeiro dia, quando Marilena avisou minha mãe, minha família e meu advogado tentavam desesperadamente me encontrar. Eles sabiam que se eu fosse levada na auditoria, eu estaria salva pois teria sido apresentada e seria muito difícil eles me matarem. Por isso, usaram de todos os subterfúgios e procedimentos legais para conseguirem que eu fosse apresentada. O meu advogado entrou com um pedido na Auditoria afirmando que eu tinha sido presa. A auditoria mandou uma ordem para o Quartel da PE.

Essas contradições existiam porque em meio ao horror a ditadura brasileira sempre tentou manter justificativas legais. E nós não estávamos sendo torturadas numa casa clandestina, mas num quartel do exército. E assim um dia mandaram eu me vestir – nós usávamos um macacão na prisão – e eu fui levada por um grupo de soldados da PE para a Auditoria da Marinha.

Quando eu cheguei na auditoria eu não andava, a minha perna continuava atrofiada e eu tinha hematomas e ferimentos pelo corpo. Me levaram para uma sala onde estavam meus pais e meu advogado. Sempre rodeada pelos soldados da PE, eu pedi por favor para que eles tentassem me tirar do DOI-Codi e me levassem para o Hospital Militar. Eu sabia também que aquele momento era a única chance que eu teria de denunciar as torturas com uma prova real. Eu era a prova real da tortura. E apesar do medo imenso que sentia eu denunciei que estava naquele estado por causa das torturas, num depoimento extremamente emocionado.

Lembro – e eu tinha apenas 22 anos – que quando entrei na sala todos os juízes militares baixaram a cabeça. Não tiveram a coragem de me encarar. Como também não tiveram a coragem – apesar de todos os esforços do meu advogado – de me mandarem para o Hospital Militar e, mais uma vez, eu fui levada para o DOI-Codi. Eu tremia muito pois imaginava o que me esperava depois de ter denunciado tortura. Eu disse para o meu advogado: ‘Eles vão me matar’. A impotência estampada nos olhos dele era o retrato desse país.

Mas eles não podiam mais me matar porque eu já estava oficialmente presa, o que no entanto não tinha a menor importância para mim. O importante era que eu sabia que ia voltar a ser torturada e que eles deveriam estar furiosos com o meu depoimento. E é impressionante a capacidade deles de inventarem sempre alguma coisa diferente. Alguma coisa que vai te deixar pior ainda.

Quando cheguei na sala de tortura, estavam todos juntos e enlouquecidos. (Releio esse depoimento e vejo que a todo momento eu digo que foi a pior coisa que vivi na vida.) Bom, esse momento foi de novo o pior momento que já vivi na vida. Eles me fizeram representar o que eu tinha feito na auditoria, como se tivesse sido uma representação, uma mentira, uma palhaçada. “Ah, agora faz mais cara de choro, não está suficiente, você fez mais cara de choro do que essa lá’, ‘- Manca mais, você mancou mais lá filha da puta’. E eu fiz tudo o que eles mandaram, eu fiz tudo que eles mandaram. A sensação era que eu tinha perdido inteiramente minha identidade. Quando a sua dor é transformada em piada com a sua ajuda é como se nada mais tivesse sentido.

Depois disso, eu fiquei mais algum tempo no DOI-Codi, não sei precisar quanto. Sei que fui presa em 31 de março e que quase três meses depois fui finalmente mandada para a Vila Militar, onde passei a ser legalmente presa, com visita de família e advogado. De todo esse período, de todo esse horror, eu vivi também alguns momentos de esperança. No quartel da Barão de Mesquita, além das equipes de torturadores, encontrávamos soldados da Polícia do Exército em serviço militar. Era um quartel, com um funcionamento normal de quartel. E a maior parte dos soldados para mostrar serviço diante dos oficiais participavam da brutalidade. Ou nos empurrando, ou, por exemplo, dizendo que tinha um degrau a mais quando subíamos uma escada de capuz fazendo com que caíssemos. Pequenos poderes, muitos abusos. Mas nem todos se comportaram assim. Dois soldados são inesquecíveis por terem conseguido manter sua humanidade. E eu queria lembrá-los hoje.

Eu queria lembrá-los aqui, mesmo sem saber seus nomes, porque o que estamos fazendo é um exercício de humanidade. Um soldado se ofereceu para levar um bilhete para minha família. E levou. O outro foi o enfermeiro que na minha primeira noite na enfermaria passou todo o tempo acordado colocando panos quentes para tentar amenizar a dor da minha perna, Lembro que ele só repetia. “Quando eu terminar o serviço militar, quero esquecer tudo isso.”

Mas nós não podemos esquecer. E por isso estamos aqui hoje.

Estava já há cerca de dois meses na Vila Militar, quando em final de agosto, fui levada de novo para o DOI-Codi. Essa possibilidade não passava pela minha cabeça. Tinha me convencido que tudo aquilo acabara. Mas com o assassinato da Yara Yavelberg e a perseguição ao Lamarca e ao Zequinha, resolveram que eu deveria ser interrogada de novo sobre a Bahia.

Quando um sargento me disse, na Vila Militar, que eu iria ser levada para o DOI-Codi entrei em desespero, e de novo tentei suicídio. Era inadmissível voltar a viver tudo aquilo. Mas fui impedida pela minha companheira de cela, minha querida Abigail Paranhos, que perdemos para o câncer alguns anos atrás. Estava tão desesperada que me deram uma injeção e fui levada quase desmaiada para a Barão de Mesquita.

Lá tudo estava mudado. As celas tinham cama e lençol e os aparelhos de tortura foram substituídos por celas com controle de som e de temperatura, as chamadas geladeiras. Os presos eram colocados sem poder dormir, sem comer e em temperaturas baixíssimas. Fui de novo interrogada pelo Major Cinelli. Eu não estava entendendo nada do que acontecia.

Hoje, me parece que o DOI-Codi da Barão de Mesquita, a partir desse momento, foi reservado para presos que passariam por esse “interrogatório cientifico”. Ao mesmo tempo, os militantes das organizações armadas considerados chave foram sumariamente condenados à morte. Não iam mais para o DOI-Codi. Iam ser torturados e assassinados em outros lugares, como a Casa da Morte de Petrópolis, cuja única sobrevivente foi Inês Etiene Romeu.

Foi assim com Sérgio Furtado, com Paulo Ribeiro Bastos, com Fernando Santa Cruz e muitos outros companheiros que constam da lista de “desaparecidos”. A pena de morte foi decretada também para os combatentes urbanos nesse período, assim como foi para os militantes da Guerrilha do Araguaia. Não posso provar que houve uma decisão de matar os poucos sobreviventes das organizações armadas, mas é o que deduzo do que vivi nessa época.

O Nagib, que gostava de discursar, de me explicar as técnicas e os objetivos deles, me disse uma vez que depois de acabarem conosco, que no fundo éramos apenas garotos impertinentes, eles iam terminar com quem efetivamente importava, com aqueles que tinham feito nossas cabeças. E que depois de aniquilar as organizações armadas, iriam aniquilar o Partido Comunista Brasileiro. Efetivamente, alguns anos depois a direção do PCB foi assassinada.

É terrível você olhar para trás e descobrir que no seu país utilizou-se de métodos cruéis e criminosos na luta política. Não se tratava apenas de aniquilar quem estava se defendendo de armas na mão, mas de aniquilar toda e qualquer visão contrária à deles. Era um método de manutenção de um poder autoritário. Uma vez na enfermaria, quando questionei o Amilcar Lobo de como um médico e psicanalista se permitia àquele papel, ele me disse que se não fosse ele seria outro, que ele era apenas um membro de uma engrenagem. Eu me lembro que respondi: muitos disseram isso em Nuremberg.

Não estamos em Nuremberg. 43 anos se passaram desses acontecimentos. Restaram pequenas cicatrizes no meu corpo, um problema de sensibilidade na minha perna direita e essa história. Uma história que compartilho com vocês não por desejo de vingança ou masoquismo, mas porque acredito que a única maneira de fortalecermos a democracia nesse país é conhecendo nosso passado. A única maneira de combater aqueles que ainda torturam por esse país afora, é mostrar que esse é – e sempre foi – um crime de lesa-humanidade.

Depois de 3 anos e meio de prisão, fui solta. É verdade que depois de tudo isso, reconstruí minha vida. Com a ajuda de minha família, de meus amigos e de um processo de análise que durou 25 anos. Mas reconstruir não significa esquecer. Reconstruir significa saber conviver com esses fatos lutando para que não se repitam jamais. O horror à violência e ao autoritarismo passou a fazer parte de mim.

Há dois anos, pedi licença ao Exército para filmar as celas onde estive presa. O pedido foi negado. Sem explicações. Como se pode avançar em direção ao futuro se não se pode reconstruir o passado? Até quando vão esconder nossa história?

Milhares de pessoas foram presas e torturadas no Rio de Janeiro. Queria pedir à Comissão que comece uma campanha para que todos aqueles que foram presos mandem um depoimento. Precisamos saber o que aconteceu. Nome, data, que torturas sofreu e quem foram os responsáveis.

Na minha época do DOI-Codi, os torturadores usavam nome de guerra e tinham seus nomes verdadeiros tampados por um esparadrapo na camisa. Mas posteriormente, consegui identificar alguns deles, que são: Major Demiurgo – então chefe do DOI-Codi e que mantinha contato com nossas famílias; Tenente Armando Avolio Filho – de nome de guerra Apolo; e Riscala Corbage, o Nagib.

Os outros não consegui localizar. E creio que passados 43 anos será quase impossível o reconhecimento. Mas outros torturados, e foram milhares, com certeza terão outras informações a dar.

Espero que a Comissão possa ouvir os que ainda estão vivos e a todos aqueles que foram reconhecidos para que possamos revelar por inteiro esse período.”

27.5.13

A CASA É NOSSA!


A CASA É NOSSA!

Mais do que um grupo de profissionais que quer representar a categoria, nós, do Projeto Linha Direta com Jornalistas (CHAPA 1) pretendemos trabalhar como facilitadores e propomos a abertura plena do sindicato. O Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ) precisa se adequar à nova realidade das tecnologias da informação e conquistar oportunidades do interesse de uma categoria que tem se reinventado nas últimas duas décadas. Para isso, é prioritário resgatarmos a identidade entre sindicato e jornalistas, hoje indefinida para a maioria!

Na última gestão do Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Município do Rio de Janeiro (SJPMRJ), a diretoria obteve conquistas importantes, como a retirada de feriados do banco de horas e seu pagamento em dinheiro, a regularização da sede do sindicato, a adoção do ponto eletrônico nas redações e a bem-sucedida aprovação da PEC do Diploma no Senado Federal. Mas a participação da categoria nessas conquistas foi pequena, com assembleias vazias e número baixo de filiações, sobretudo de jovens profissionais recém-ingressos no mercado de trabalho.

Nossa ideia é fazer com que todos os jornalistas se apropriem do sindicato e o transformem num espaço vivo e atuante. Que ocupem o auditório e, apoiados pela direção, organizem eventos culturais, cursos, debates, oficinas com estudantes, apresentações acadêmicas, lançamentos de livros, reuniões do movimento social, sessões de cinema, encontros de aposentados, palestras de especialistas e o que mais seja considerado pertinente. Além disso, pretendemos abrir uma nova carteira de plano de saúde e realizar novos convênios, o que consolidará a identidade entre sindicato e jornalistas e fará ressurgir o interesse da categoria pela sua entidade representativa. A partir daí, acreditamos que os profissionais compreenderão melhor a importância das assembleias e mobilizações de caráter mais político.

Nós, do Projeto Linha Direta com Jornalistas, entendemos que apenas duas coisas são necessárias para concretizarmos nosso plano: uma rede de colaboradores assumindo iniciativas de interesse da categoria e a reorganização da estrutura do sindicato em função do impacto das novas tecnologias da informação na sociedade e no jornalismo. Expostos de maneira mais completa em nosso programa, esses são os dois objetivos estratégicos que norteiam o Projeto Linha Direta com Jornalistas e que consubstanciam as seguintes propostas:

1) Protocolo: adoção de um sistema em que cada dúvida, reclamação ou encaminhamento feito ao sindicato por SMS, e-mail, Facebook, telefone, correspondência ou pessoalmente receba um número de protocolo quando registrado e obtenha resposta em 24 horas.

2) Central de relacionamento: contratação/designação de um responsável por aproximar o sindicato dos associados, mantendo-os informados de eventos específicos, situação de mensalidades, sugestões de convênios, atualizações de cadastro etc.

3) Campanha permanente de filiação: criação de um sistema que possibilite a filiação remota, na casa ou no trabalho do jornalista, e nos eventos de que o sindicato participe.

4) Sem abrir mão das conquistas trabalhistas que já obtivemos, pretendemos discutir e elaborar formas de remuneração para as funções que surgiram ou se alteraram com as novas tecnologias da comunicação e informação.

5) Defesa da obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão.

6) Piso salarial: lutar pela inclusão dos jornalistas na lei do piso regional da Assembleia Legislativa e pelo piso nacional dos jornalistas no Congresso Nacional.

7) Legitimar participação via internet: adotar mecanismos de participação remota em assembleias, reuniões e eventos do sindicato através de transmissões ao vivo pela internet.

8 ) Realização do Congresso dos Jornalistas do Município: uma reforma do estatuto se faz necessária para legitimar a participação nos fóruns deliberativos pela internet e para debater as questões políticas de interesse da categoria.

9) Cátedra Sindical: estabelecer uma parceria permanente entre o sindicato e os cursos de comunicação no município em que palestras e atividades sobre mercado de trabalho, ética e formação profissional, realizadas pelo sindicato, tanto nas universidades como na própria entidade, valham créditos para os estudantes.

10) Pressionar junto com a Fenaj pela aprovação do projeto de lei que federaliza os crimes cometidos contra jornalistas.

11) Jornalismo sem depressão e sem assédio: campanha de boas práticas contra o assédio moral e doenças ocupacionais através de cartilhas, palestras, terapia em grupo e convênios com terapeutas.

12) Abertura de uma nova carteira de plano de saúde para os associados.

13) Abertura de novos convênios em estabelecimentos de interesse dos jornalistas, como museus, livrarias, restaurantes, teatros e cinemas.

14) Valorização do jornalista sênior: debater políticas e lutar por cláusulas na convenção coletiva que garantam respeito e estabilidade para profissionais com mais de vinte anos de carreira.

15) Criar o núcleo de aposentados do sindicato: o objetivo é integrar os aposentados às atividades do sindicato e criar outras iniciativas do interesse dos jornalistas nessa condição.

É por isso que nós, da CHAPA 1, propomos aos jornalistas cariocas que, nos dias 16, 17 e 18 de julho, votem no Projeto Linha Direta com Jornalistas!

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Chapa 1 – Linha Direta Com Os Jornalistas

Presidente: Bruno Cruz
Vice-presidente: Andrei Bastos
1º tesoureiro: Marcos Pereira
2º tesoureiro: Rosayne Macedo
Secretário-geral: Terezinha Santos
Conselho fiscal: Maurílio Ferreira, Bette Romero, Sônia Fassini
Delegados na Fenaj: Ilza Araújo, Miro Nunes
Suplentes: Marília Ferreira, Malu Fernandes, Carmen Pereira, Sandra Martins, Mônica Coronel
Comissão de Ética: Iara Cruz, Cristina Miguez, Márcio Ferreira, Luís Carlos Bitt, Françoise Vernot

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26.5.13

É mentira, Azêdo?

video

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24.5.13

Arquivamento do PLS 112/06

Amigos,

Eu acabei de criar minha própria petição no site de Petições da Comunidade da Avaaz. Chama-se: Arquivamento do PLS 112/06.

Eu realmente me importo com esse assunto e juntos podemos fazer algo a respeito! Cada pessoa que assinar nos ajuda a nos aproximar do nosso objetivo de 100 assinaturas — você pode dar uma ajuda?

Clique aqui para ler mais a respeito e assine:
https://secure.avaaz.org/po/petition/Arquivamento_do_PLS_11206/

Campanhas como essa sempre começam pequenas, mas crescem quando pessoas como nós se envolvem — por favor, gaste um segundo agora para ajudar assinando e passando adiante.

Muito obrigado,

Andrei

21.5.13

Se ruim está, pior ficará

ANDREI BASTOS

E podemos continuar rimando com: nas mãos do Jucá.

Essa é uma rima verdadeiramente infeliz para as pessoas com deficiência brasileiras, pois canta a infelicidade que se abaterá sobre elas se o PLS 112/06, de autoria do senador José Sarney, prosseguir no seu inconfessado enredo de má-fé e retrocesso, atualmente no capítulo da relatoria de outro senador, o Romero Jucá.

Segundo o dicionário, má-fé é “intenção de causar dolo ou prejuízo, de distorcer a verdade etc.” e retrocesso é “ação ou resultado de retroceder, de mover-se para trás; RECUO”. Portanto, a despeito de toda a contribuição que o senador Sarney deu à emancipação das pessoas com deficiência do país, no passado, pode-se considerar que, no presente, para infelicidade geral da nação com deficiência, sua contribuição com o PLS 112/06 é negativa.

Tal avaliação encontra ampla receptividade no movimento de pessoas com deficiência, como demonstram e corroboram a rejeição de todas as suas propostas pelo Conselho Nacional dos Direitos das Pessoas Portadoras de Deficiência (CONADE), em 2008, a análise técnica da Coordenadoria Nacional para Integração da Pessoa Portadora de Deficiência (CORDE), em 2009, e, por último, a Nota Pública da Associação Nacional de Membros do Ministério Público de Defesa dos Direitos dos Idosos e Pessoas com Deficiência (AMPID), agora em 2013.

Juntando a rejeição total do CONADE, a rejeição dos artigos que reduzem as vagas e permitem a não contratação direta, entre outros, da CORDE, e o repúdio ao desarquivamento do projeto de lei manifestado pela AMPID, que afirma que “NADA ou quase nada do PLS 112/06 é passível de ser aproveitado”, só resta às pessoas com deficiência lutar, junto com a sociedade civil, para retirar de pauta essa aberração jurídica.

Aberração que fica mais assustadora ainda com as contribuições aprimoradas de má-fé e retrocesso do relatório do senador Jucá, que revoga o Art. 93 da Lei 8.213/91, condicionador da demissão do profissional com deficiência à contratação de outro nas mesmas condições, que desobriga as empresas de contratar diretamente as pessoas com deficiência, que reduz para 3% a 0,5% o percentual de contratação para as empresas “de acordo com o risco da atividade econômica” de cada uma, que possibilita às empresas recolher “ao Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) valores equivalentes à remuneração mensal dos cargos não preenchidos” ao invés da contratação das pessoas com deficiência, e que mantém a contratação pelo empregador ONG especializada.

Portanto, se, para as pessoas com deficiência, o texto original do Sarney já continha as inúmeras assombrações de redução de vagas no mercado de trabalho, permissão da não contratação direta, redução da cota nos concursos públicos e reabertura de prazo para adaptação dos transportes, entre outros fantasmas menos assustadores, mas também significativos e que denunciam inadequação, como o uso de nomenclatura superada, nas mãos do Jucá pior ficará.

Andrei Bastos é jornalista.

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20.5.13

Diretoria sub judice da ABI

Na foto acima, publicada no site da ABI, Maurício Azêdo e a diretoria sub judice que tomou posse em 20/05/2013.

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18.5.13

Retratos da decadência

Nas fotos, equipamentos da Sala de Imprensa da ABI:


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Decadência da ABI

15.5.13

Pedido de Direito de Resposta

Rio de Janeiro, 15 de maio de 2013

Sr. Maurício Azêdo,

Considerando que o Jornal da ABI de abril de 2013, edição 389, publicou uma inverdade a meu respeito, peço a publicação desta carta, e de foto citada na matéria, de minha autoria, para dirimir quaisquer dúvidas, no mesmo veículo e no site da ABI, que reproduziu o conteúdo do jornal.

A bem da verdade, e dentro do contexto apresentado no material publicado, informo que sempre agi com independência, de acordo com minha consciência, e considero tolas, senão senis, as ilações de que sou pau-mandado ou pupilo de quem quer que seja. É verdade que na minha vida profissional admirei diversos colegas, que tive como mestres, o que nunca se aplicou à sua pessoa, de quem tenho a única lembrança de ter entrado na redação em que eu trabalhava e ter agredido fisicamente o editor Félix de Athayde, cena a que assisti estupefato.

Portanto, no dia 25 de abril deste ano, compareci à Assembleia-Geral Ordinária Anual da ABI de peito aberto e de modo transparente, como sócio antigo e preocupado com a situação calamitosa em que se encontra a instituição. Sempre defendi minhas opiniões aberta e francamente em tudo de que participei, encarando de frente quem pensasse o contrário, e considero idiota, senão senil, a expressão “quinta-coluna” contida no título da matéria publicada.

Ao entrar no auditório da Assembleia e ver a cena deprimente da quase totalidade das suas cadeiras vazias, com a mesa composta por apenas um protagonista solitário, fiz a foto em questão e a publiquei no mesmo dia em meu blog, o que pode ser facilmente comprovado.

Contando com o pronto atendimento ao meu pleito,

ANDREI DE SAMPAIO BASTOS

14.5.13

JORNAL DA ABI MARROM

Recebi o exemplar do Jornal da ABI de abril e fiquei chateado por ver companheiros que respeitava como jornalistas se prestarem ao papel ridículo de publicar ou apoiar uma evidente inverdade na página 18, de fácil contestação, me citando:

“Meirelles e seus paus-mandados não vacilaram em recorrer ao jornalismo marrom para agredir a ABI, como fez Andrei de Sampaio Bastos, um de seus pupilos, que fotografou o cenário do show de Monarco e da Velha Guarda da Portela comemorativo dos 105 anos da ABI quando havia apenas três pessoas na platéia (sic), pois o espetáculo não começara…”

Acontece que fiz a foto no dia 25 de abril, na abertura deprimente da Assembleia-Geral Ordinária da ABI, protagonizada pelo igualmente deprimente Maurício Azêdo, visto melancolicamente sozinho à mesa de abertura, e a publiquei no mesmo dia em meu blog:

13.5.13

Vamos em frente!

JUSTIÇA SUSPENDE POSSE DA DIRETORIA DA ABI
LEIA DESPACHO DO JUIZ

Junte-se o expediente ora apresentado. Considerando o teor da decisão de fls. 129, defiro a liminar requerida para suspender o ato de posse da nova diretoria da ABI, até decisão judicial em sentido contrário, posto que o processo eleitoral da instituição encontra-se sub judice. Intime-se imediatamente por OJA de plantão.

11.5.13

Minha entrevista no Jornal Visual

Clique aqui para assistir ao vídeo no site da TV Brasil.

Jornal Visual 09/05/2013:

Uma pesquisa do hospital das clínicas de São Paulo mostra que o Transtorno Obsessivo Compulsivo está associado a outras doenças.
E ainda: Uma entrevista especial com o jornalista Andrei Bastos. Ele vai falar sobre Turismo Acessível.

Jornal Visual: De segunda a sexta, às 08h30 da manhã, na TV Brasil. Para mais edições, acesse:
http://tvbrasil.org.br/jornalvisual

10.5.13

Sarney pra se coçar

O senador José Sarney não gostou do meu artigo "Uma garota Down", publicado em O Globo no dia 1º de maio, e escreveu para o jornal reclamando.

1.5.13

Uma garota Down


O Globo, Opinião, 01/05/2013:
 
Uma garota Down
 
ANDREI BASTOS
 
Olhos que nem sei verdes ou azuis brilhavam tanto no sorriso do rosto inteiro e me surpreenderam docemente quando toquei minha cadeira de rodas para a porta do elevador do shopping. Ouvi o “oieeee!” esticado com o pescoço por uma cabecinha dourada de cabelos cacheados e olhinhos apertados. Respondi com um “oiii!” de incontido entusiasmo, pois poucas vezes fui cumprimentado com tanta simpatia.
 
A garota perguntou em seguida: “Tudo bem?”, e eu respondi: “Tudo. E você, como vai?”. A resposta veio como um vento de felicidade e orgulho: “Eu vou bem, estou trabalhando aqui!” e, estufando o peito, ela me mostrou o crachá. Em seguida, numa mudança brusca, mas suave, de tom, completou: “Sou terceirizada”. Seu ar repentinamente triste me deixou pensativo.
 
Por quê a alegria dessa garota com síndrome de Down, que eu conheço há alguns anos, não é completa? Por que ela não tem direito à felicidade inteira do seu emprego?
 
Sem levar em consideração a possibilidade de fraude que a intermediação da mão de obra com deficiência cria, como no episódio recente que envolveu uma montadora de automóveis e conhecida organização social, com multa de R$ 400 milhões determinada pela Justiça, a terceirização é, para as pessoas com deficiência, que podem ser usadas mais facilmente em esquemas ilícitos, um cruel fator de discriminação.
 
Sem levar em consideração a possibilidade de enriquecimento de instituições e indivíduos que se dediquem à intermediação da mão de obra com deficiência, em evidente desrespeito à dignidade humana, a terceirização é, para as pessoas com deficiência, que podem ser usadas inescrupulosamente em proveito de outros, um cruel fator de segregação.
 
Como disfarce para procedimentos ilícitos ou exploradas por uma mais-valia dobrada nos guetos dos intermediários, a mão de obra com deficiência não pode dizer que exerce o direito ao trabalho preconizado no Artigo XXIII da Declaração Universal dos Direitos Humanos.
 
Para que a garota minha amiga e todas as pessoas com deficiência possam se considerar incluídas socialmente, é necessário que se dê fim à desfaçatez da terceirização em que se vende bondade, e os profissionais com deficiência sejam empregados diretamente nas empresas, sem a desculpa de que requerem uma atenção especial para a qual os empregadores não estão preparados. Se as empresas precisam de preparo, que usem as instituições especializadas para treinar seus quadros e adequar seus ambientes e assumam sua responsabilidade na sociedade.
 
Finalmente, para que o brilho dos olhos que nem sei verdes ou azuis da garota com síndrome de Down não se apague, também é preciso acabar com os projetos de lei de má-fé que sempre estão à espreita para roubar direitos já conquistados e promover o retrocesso, como o Projeto de Lei nº 112/2006, do senador José Sarney que, além de reforçar a terceirização, reduz o número de contratações de pessoas com deficiência e confina milhares delas em oficinas de trabalhos manuais e artesanato.
 
Andrei Bastos é jornalista.